Na parede tem um mapa-múndi do século não sei quantos...

"(...)Meu coração está perdido, mas tenho um mapa de Babylon City entre as mãos. Primeiro dia do fog autêntico. Há um fantasma em cada esquina de Hammersmith, W14. Vou navegando nas waves de meu próprio assobio até a porta escura da casa vitoriana.
- Good morning, Mrs. Dixon! I’m the cleaner!
- What? The killer?
- Not yet, Lady, not yet. Only the cleaner...
Chamo Mrs. Dixon de Mrs. Nixon. É um pouco surda, não entende bem. Preciso gritar bem junto à pérola (jamaicana) de sua orelha direita. Mrs. D(N)ixon usa um colete de peles (siberianas) muito elegante sobre uma malha negra, um colar de jade (chinês) no pescoço. Os olhos azuis são duros e, quando se contraem, fazem oscilar de leve a rede salpicada de vidrilhos (belgas) que lhe prende o cabelo. Concede-me algum interesse enquanto acaricia o gato (persa):
- Where are you from?
- I’m Brazilian, Mrs. Nixon.
- Ooooooouuuuuu, Persian? Like my pussycat! It ‘s a lovely country! Do you like carpets?
- Of course, Mrs. Nixon. I love carpets!
Para auxiliar na ênfase, acendo imediatamente um cigarro. Mas Mrs. Nixon se eriça toda, junto com o gato:
- Take care, stupid! Take care of my carpets! They are very-very expensive! 

(...)Sempre anoitece cedo e na sala discutem as virtudes da princesa Anne, alguém diz que o marido sim, é uma tesão, e ouvem rock que fala numa ilha-do-Norte-onde-não-sei-se-por-sorte-ou-por-castigo-dei-de-parar-por-algum-tempo-que-afinal-passou-depressa-como-tudo-tem-de-passar-hoje-eu-me-sinto-como se agora fosse também ontem, amanhã e depois de amanhã, como se a primavera não sucedesse ao inverno, como se não devesse nunca ter ousado quebrar a casca do ovo, como se fosse necessário acender todas as velas e todo o incenso que há pela casa para afastar o frio, o medo e a vontade de voltar. Mas o carrinho de bebê está vazio. A pedra de Brighton parece um coração partido. O tarô esconde a Torre Fulminada. As flores amarelas sobre a mesa branca ainda não morreram. O telefone existe, mas não chama. Na parede tem um mapa-múndi do século não sei quantos. O cacto. A agulha faz a bolha na ponta do dedo de Saturno libertar um líquido grosso e adocicado. Sinto dor: estou vivo. Meu último olhar do dia repousa, como num poema antigo, sobre o uniforme da Terceira Grande Guerra jogado ao chão para a ofensiva da manhã seguinte: tênis francês (trinta francos), blue jeans sueco (noventa coroas), suéter inglês (quatro libras), casaco marroquino (novecentas pesetas). Agora custo um pouco mais caro e meu preço está sujeito às oscilações da bolsa internacional. Quando você voltar, vai ver só, as pessoas falam, apontam: “Olha, ele acaba de chegar da Europa”, fazem caras e olhinhos, dá um status incrível e nesse embalo você pode comer quem quiser, pode crer. Magrinha, você me avisou, eu sei, mas onde estão teus dedos cheios de anéis? Mas na sala, na sala discutem as virtudes do marido da princesa Anne e cantam rock.Situo, situo-me. Coloco o despertador para as sete horas, ainda é escuro, os carros ficam cobertos de gelo, apago a luz e puxo o cobertor roxo para cima de mim. E ainda por cima diz alguém longe, ainda por cima no fim do ano tem o cometa. Procuro o fósforo, acendo um cigarro. A pequena ponta avermelhada fica brilhando no escuro. Sorry, in the dark: red between the shadows. Quase como um farol. Sorry: a lighthouse. Magrinha, lá na Bahia, localiza minha pequena luz, estende tua mão cheia de anéis por sobre o mar e toca na minha testa caliente de índio latino- americano e fala assim, com um acento bem horroroso, que Shakespeare se retorça no túmulo, fala assim:
- De beguiner is ólueis dificulti, suiti ronei, létis gou tu trai agueim. Iuvi góti somessingui élsi, donti forguéti iti.
I don‘t forget. Meu coração está perdido, mas tenho um London de A a Z na mão direita e na esquerda um Collins dictionary. Babylon City estertora, afogada no lixo ocidental. But l’ve got something else. Yes, I do.."

                                                                                         
                                                                  (CAIO FERNANDO ABREU)


Meu fascínio por Londres e pelas coisas que vivi, vi, lembro. Recordações. Coração saudoso. Texto que li enquanto morava no cinza, na cor. Saudades todos os dias. De lá. De Caio, da metonímia. Das esquinas. Do cheiro. Da poesia. Da inspiração. Caio me inspira, Londres também enquanto escuto Ella. Ela por Ella Fitzgerald. 



               Com todo o meu amor, Nathy...

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