‘O que vai fazer com sua vida?’ De uma forma ou de outra, parecia que as pessoas estavam sempre fazendo aquela pergunta – os professores, os pais, os amigos às três da manhã -, mas a questão nunca tinha parecido tão premente, e ela estava longe de obter uma resposta. O futuro se estendia à sua frente, uma sucessão de dias vazios, cada um mais desanimador e incompreensível que o outro. Como iria preencher todos eles?
Retomou a caminhada para o sul, em direção a The Mound. ‘Viver cada dia como se fosse o último’ – esse era o conselho convencional, mas na verdade quem tinha energia para isso? E se chovesse ou você estivesse de mau humor? Simplesmente não era prático. Era bem melhor tentar ser boa, corajosa, audaciosa e se esforçar para fazer a diferença. Não exatamente mudar o mundo, mas um pouquinho ao redor. Seguir em frente, com paixão e uma máquina de escrever elétrica e trabalhar duro em…alguma coisa. Mudar a vida das pessoas através da arte, talvez. Alegrar os amigos, permanecer fiel aos próprios princípios, viver com paixão, bem e plenamente. Experimentar coisas novas. Amar e ser amada, se houver oportunidade.

Essa era a teoria geral, mesmo que não tivesse começado muito bem. Dando de ombros e aparentando indiferença, tinha se despedido de alguém de quem realmente gostava, o primeiro rapaz pelo qual havia realmente se interessado, e agora teria de aceitar o fato de que talvez nunca mais o visse. Não tinha nenhum número de telefone nem o endereço, e, mesmo que tivesse, o que iria fazer? Ele também não tinha lhe pedido o número do telefone, e ela era muito orgulhosa para se comportar como uma tontinha deixando mensagens indesejadas. “Tudo de bom para você” tinha sido sua última frase. Será que era o melhor que poderia ter dito?
Continuou andando. Quase avistava o castelo, quando ouviu passos, solas de sapatos elegantes batendo forte no chão atrás dela. Mesmo antes de ouvir seu nome e se virar para olhar, já estava sorrindo, porque sabia quem era.
— Pensei que tinha perdido você! — disse ele, diminuindo o passo, o rosto vermelho, ofegante, tentando aparentar indiferença.
— Não, estou aqui.
— Desculpe pelo que aconteceu.
— Não tem problema, tudo bem.
Ele parou com as mãos nos joelhos, recuperando o fôlego.
— Eu achei que meus pais só iam chegar mais tarde, mas de repente eles estavam lá e tudo aquilo me deixou confuso. Mas aí percebi que... não me leve a mal, mas percebi que não teria como entrar em contato com você.
— Ah. Certo.
— Então... olha, estou sem caneta. Você tem uma caneta? Você deve ter.
Ela revirou os restos do piquenique na mochila. “Ache uma caneta, por favor, tenha uma caneta, você tem de ter uma caneta...”
— Oba! Uma caneta!
“Oba? Você gritou ‘oba’, sua imbecil. Fique calma. Não estrague tudo agora.”
Procurou um pedaço de papel na carteira, achou uma notinha de supermercado, passou para ele e ditou o número do seu telefone, o número dos pais em Leeds, o endereço deles e o seu próprio, em Edimburgo, com ênfase especial no código postal correto. Em troca, ele escreveu os seus dados também.
— Esse sou eu. — Entregou-lhe o precioso pedaço de papel. — Você me liga, ou eu ligo para você, mas um de nós vai ligar, certo? O que eu quero dizer é que não se trata de uma competição. Ninguém perde se ligar primeiro.
— Entendi.
— Vou estar na França até agosto, mas quando voltar de repente a gente pode passar um tempo juntos. Que tal?
— Ficar juntos?
— Não para sempre. Por um fim de semana. Na minha casa. Na casa de meus pais, se você quiser.
— Ah. Tudo bem. Sim. Tudo bem. Sim. Sim. Tudo bem. Sim.
— Bom. Agora eu preciso voltar.
Ele colocou a mão no pescoço dela, ao mesmo tempo que ela tocava de leve no quadril dele, e os dois se beijaram no meio da rua, rodeados de pessoas que corriam para casa sob os últimos raios do sol de verão, e foi o beijo mais doce que já tinham sentido.
É onde tudo começa. Tudo começa aqui, hoje.
E logo depois termina.



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